Don Juan

Não negarei carinho, sorriso ou pudor,
nos deliciamos com o jogo debaixo do cetim.
Em seus orbes escuros, espelha-se o fervor,
que, disfarçado, ainda pertence a mim.

Refreando o anseio soluçante, estremeço
frente ao que derrama sua boca de libertino,
a volúpia traiçoeira que não esqueço,
minha ofensa se torna seu desatino.

Seu arfar e sorriso esgarçado, tão crus,
metamorfoseiam-me em pássaro fugidio.
Não pode ser príncipe armado em andaluz,
e sim, jovem bandido de força e brio.

Terei a culpa eterna se, ao condená-lo,
sair caminhando com discreto enfado.
Pela ponte dos que suspiram, ao levá-lo
por conta de um simples beijo roubado.

Uma golfada de dor tragou de vez minha alma,


Uma golfada de dor tragou de vez minha alma,
que havia se agarrado ao teu barco...
Mas veio uma geada que não acalma,
e fui levada pela espuma como um marco.

Não havia mais uma palavra que me beijasse
como tantas outras haviam feito, doçura.
Porém na água salgada havia quem pintasse,
naquele jeito tristonho, a minha loucura.

Uma dama anoitecendo para teu sorriso.
Teus olhos cegos pelo orgulho e pelo prazer,
não sentiu o fim de nosso efêmero paraíso,
nem percebeu que me deixou morrer.

Pequena história

I


Café-da-manhã, muito doce,
faca lambuzada com morangos.
E um sorriso amanteigado e escorrido,
açúcar mascavo salpicado na toalha

Eu mexo o leite tostado.
Você suspira ao olhar o jornal.

Um grito maternal nos escapa.
Sirvo-lhe mais chá de cidreira
mas não conseguimos que os olhos vejam.
O que rebrilha na cerâmica do bule
são lágrimas.

II

Já se foi o eixo, à trabalho,
no silêncio da apatia que nos cerca.
Na poltrona, espero o relógio,
que se foi ontem e não voltou.

Na sala, os crochês clarinhos
se foram ao amanhecer.

Soergo minha carcaça enfraquecida
mas o movimento se quebra, vergando.
Em meu dedo fino de moça,
algo aperta como espinho
de rosa.

III

Você chega, já tirando o telefone
do gancho, fechando janelas.
Ouço tudo da cozinha, esperando.
Minhas mãos de espuma lavam o bule.

Num furor, você começa
discurso desajeitado, cheio de pena.

Mas se vê refletido em meus olhos,
calando um sepulcro que é salvação.
Esboça um esgar que mal parece sorriso,
sentamo-nos junto em frente ao mármore,
é frio.

IV

Acordo sob o cobertor acetinado - acordo?
Não, não há despertar, nem ao menos dormi.
Cambaleando até a sala, até a mesa.
Um sufoco constante pesa sobre meus olhos,
tão vazios que inexistem.
Marcando o final de um longo livro.

Sorvo algo que se assemelha à dor.
Meu corpo veste apenas frágil roupão,
que parece se desfazer quando você chega,
encarando à mim e ao bule, quente.

Não há mais candura quando, cansada,
me levanto e caminho até ti.

Como se ofendido pela penumbra, e por mim,
agora você só vê a cerâmica.
E num gesto de bravura hercúlea,
joga longe o que vive em seu rosto.
Ignorando minha débil exclamação,
vai para o quarto, sem palavras,
vai embora e me deixa, sozinha,
a encarar os cacos e as manchas de chá.

Adeus

Diga quanto mistério, quanta graça exponho
na tentativa de esmiuçar minha vida por seus olhos.
Enquanto no coração cresce, tão pequeninho,
algo que me segue como trem nos trilhos.

Cavaleiro em armadura prateada de latão,
preenchendo um vazio que não é seu.
Como transformar em humano são
alguém tão desprovido de calor como eu?

Me soltará para o além como pássaro, como colibri?
Espere, me segure mais um pouco no seu abraço.
Nesse universo imenso e escuro eu já vi, eu descobri,
que os fracos morrem antes de dar um passo.

Paisagem IV

Na manhã reluzente,
na tarde esfacelada,
no trecho pendente
da vazia estrada.

Pinta um ponto.
Soltando a poeira.

Maria-fumaça.

Oração


A cada minuto, pinto mais palavras.
Minha tez febril, minhas mãos frias.
Enquanto, lentamente, tu lavras
a máscara de outro que tem dias.

Sufoco, como se dentro d'água,
e grito para teu olhar infinito.
Se não vês meu pranto e mágoa,
teu carinho se torna mito.

Se constrói em algumas horas.
É nessas que deposito a esperança,
seja verdade que meu sorriso adoras.
Como coração sem dor de lança.

Mas não sei, não vejo fulgor.
Se entendesse, seria mais viva,
abraçaria teu corpo em flor,
sem ser luxuriosa ou lasciva.

Não espero tua compreensão,
já que imploro como mendigo.
Atada em laços como prisão,
declamo para salvador amigo.

Pedaço


Enquanto eu puder rasgar as páginas do meu pequeno caderno preto.
Enquanto eu tiver cinco flores para secar no livro grosso.
Enquanto suportar a incrível exatidão de ser anestesia de mim mesma.
Posso pintar um quarto amarelo d'ouro com quatro cantos escuros com nódoas de sangue, e um tapete azulzinho e cheio de serragem, ou talvez ferrugem de tempos onde eu plantava um jardim no meu coração de menina.