Pedaço


Enquanto eu puder rasgar as páginas do meu pequeno caderno preto.
Enquanto eu tiver cinco flores para secar no livro grosso.
Enquanto suportar a incrível exatidão de ser anestesia de mim mesma.
Posso pintar um quarto amarelo d'ouro com quatro cantos escuros com nódoas de sangue, e um tapete azulzinho e cheio de serragem, ou talvez ferrugem de tempos onde eu plantava um jardim no meu coração de menina.

República


Enquanto vão costurando a bandeira
Com dedos ágeis e tão hábeis que doem,
Um mastro largado contra o solo de terra
As estrelas manchadas de poeira

Um menino olha pela janela e vê:
Pedaços de idéias como membros do corpo.

Rouge


Na parede escorre o brilho da sua pele
Estrela negra envolve meus braços presos
Pinta um vermelho no espelho
Desenha seu nome com carmim

E eu choro seu sangue
Derramando em mim

Cher amis,

Viva La Vogue!, esse post foi mudado para o endereço onde agora manterei textos mais... opinativos e críticos: o www.lefetichisme.blogspot.com.
Deixarei aqui o espaço literato-poético que mantive desde o começo do blog.
Arrivederci!

Inerte


Princesa,
Papel participando para proteção
Fugindo,
Faísca falando fonte festiva

Para fazer pintura fosca
Faca pontiaguda ferindo papiro

Azul,
Amanhecer ardido a ama
Trançado,
Trazendo tudo temporário

Aninha talhe amarelo, tecido
Tarde adoece, trêmula alma

Para fazer arder temor.

Data Natalícia

- Feliz Natal.
"Como você me irrita."
- Feliz Natal você também, queridíssima.
"Que vestido horroroso, como te deixa ainda mais gorda."
- Ah, como é bom estarmos reunidos!
"Quero logo ir para casa."

A porta se abre, um a um eles saem, e para suas vidas felizes se vão. A noite de Natal acabou.
Alívio.

Diálogo

Ela olhava aqueles olhos fundos, negrume, pontos brilhantes de chama azulada pernoitando orbes líquidos. Uma pele cadavérica, luzindo como a morte, esticada sobre ossos de uma face esquecida do tempo. Lábios rachados que afundavam em si mesmos como dunas, manchas escuras sob as janelas em que se via uma alma caída, despedaçada.

Ela murmurava para aquele rosto triste, agarrada a uma esperança, tentando fazer soar a batida calma daquele coração vazio. O olhar desconexo, o sorriso perdido, nada brotava da chuva cálida que derramava seu pranto sobre doentia imagem. Sentimento abandonou-a, ela pensava em desistir, quase gritando para aquele rosto que ele precisava viver.

Ela, então, deu as costas para o espelho.